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VÍDEO: reprodução explosiva de pererecas-grudentas impressiona no litoral do PR
03/02/2026
(Foto: Reprodução) VÍDEO: reprodução explosiva de pererecas-grudentas impressiona no litoral do PR
Uma manhã aparentemente comum em Antonina, no litoral do Paraná, se transformou em um espetáculo da natureza. O estudante de biologia e educador ambiental Diego Silva registrou dezenas de pererecas reunidas em plena atividade reprodutiva às margens de um corpo d’água.
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O vídeo, que rapidamente chamou a atenção nas redes sociais, revela um momento de intensa vocalização, disputa por espaço e acasalamentos simultâneos em um curto intervalo de tempo.
A perereca-grudenta (Trachycephalus typhonius) tem esse nome por conta de uma substância que produz quando se sente ameaçada
esteban_koch/iNaturalist
O comportamento é conhecido tecnicamente como "reprodução explosiva", típico de anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas).
A espécie flagrada é a perereca-grudenta (Trachycephalus mesophaeus), comum na Mata Atlântica, mas raramente observada pelo público em uma cena tão concentrada, sincronizada e à luz do dia.
O estudante de biologia e educador ambiental Diego Silva registrou dezenas de pererecas reunidas em plena atividade reprodutiva às margens de um corpo d’água
Diego Silva
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Um chamado da floresta
O registro aconteceu após um alerta vindo de quem conhece profundamente os ciclos da mata. Diego estava em casa quando recebeu a mensagem de Luiz Carlos, um morador antigo da região, avisando que "algo diferente" estava acontecendo.
“O que primeiro me chamou atenção foi a intensidade da vocalização, um som muito acima do normal para aquele horário”, conta Diego.
A perereca-grudenta é arborícola, equipada com discos adesivos nos dedos que funcionam como ventosas, permitindo escalar troncos e folhas
Anna Luiza Freitas de Almeida/iNaturalist
Ao chegar ao local, a surpresa foi confirmada. “Quando me aproximei, percebi uma concentração impressionante de pererecas em plena atividade reprodutiva”, completa.
Mesmo familiarizado com o comportamento por meio de estudos, ele nunca havia presenciado algo daquela magnitude.
“Foi a primeira vez que vi algo tão intenso. A gente costuma associar esse tipo de comportamento à noite, então presenciar isso pela manhã tornou o momento ainda mais marcante.”
O que é a reprodução explosiva?
Segundo o herpetólogo Willianilson Pessoa, a reprodução explosiva é um dos mais de 30 modos reprodutivos conhecidos entre os anuros (anfíbios que compõem a ordem Anura). Apesar do nome chamativo, trata-se de um comportamento natural em ambientes bem conservados.
“Durante grande parte do tempo, esses animais estão dispersos, pouco visíveis e sem interação direta. Mas, quando certas condições ambientais se alinham, ocorre uma verdadeira ‘explosão’ reprodutiva”, explica o especialista.
A reprodução explosiva é um dos mais de 30 modos reprodutivos conhecidos entre os anuros (anfíbios que compõem a ordem Anura)
Diego Silva
Nesse curto período, milhares de indivíduos podem se concentrar em um mesmo local: machos vocalizam intensamente para atrair fêmeas, casais entram em amplexo (o abraço reprodutivo) e a desova acontece quase ao mesmo tempo.
Chuva: o gatilho invisível
Ao contrário de muitos animais que seguem calendários fixos, os anfíbios respondem ao clima. O fenômeno é desencadeado por uma combinação de fatores, especialmente chuvas intensas, aumento da umidade e variações de temperatura.
“Essas alterações começam antes mesmo da chuva cair. O corpo do animal percebe mudanças no ambiente por sensores na pele e no cérebro, iniciando a produção de hormônios, óvulos e espermatozoides”, explica Willianilson.
O fenômeno da reprodução explosiva é desencadeado por uma combinação de fatores, especialmente chuvas intensas, aumento da umidade e variações de temperatura
Diego Silva
Quando a chuva finalmente chega, os anfíbios se deslocam rapidamente da mata para lagoas ou poças, aproveitando uma janela curta, porém decisiva, para garantir a reprodução.
Estratégia de sobrevivência
Do ponto de vista evolutivo, a reprodução explosiva é uma resposta eficiente a ambientes instáveis. Em regiões sujeitas a secas ou mudanças rápidas, é preciso aproveitar cada oportunidade.
“Os anuros são predados por praticamente todos os grupos animais: aves, serpentes, peixes, mamíferos e até insetos. Muitos têm ciclo de vida curto. Se não aproveitam as condições ideais, podem simplesmente não deixar descendentes”, destaca o herpetólogo.
Trachycephalus mesophaeus é endêmica do leste do Brasil e ocorre na Mata Atlântica entre Pernambuco e Rio Grande do Sul
Lucas Botelho/iNaturalist
Essa urgência também se reflete no desenvolvimento dos girinos. Em poças temporárias, que podem secar, a metamorfose tende a acelerar.
Entre a água e os galhos
No vídeo gravado em Antonina, chama a atenção o fato de os animais ocuparem diferentes espaços: água, margens e galhos. Segundo Willianilson, isso está ligado à anatomia da espécie.
A perereca-grudenta (Trachycephalus mesophaeus) é arborícola, equipada com discos adesivos nos dedos que funcionam como ventosas, permitindo escalar troncos e folhas.
Trachycephalus mesophaeus é uma espécie abundante que pode ser ameaçada pelo desmatamento e pela poluição da água
zab0s/iNaturalist
“Como há muitos indivíduos no mesmo local, eles passam a ocupar diferentes microambientes. Alguns vocalizam nos galhos, outros ficam em amplexo fora da água e depois descem para a desova”, detalha.
Sinal de saúde ambiental
Além do espetáculo visual, o registro traz um recado sobre conservação. Anfíbios são bioindicadores, ou seja, são altamente sensíveis à poluição e degradação.
“Encontrar tantos indivíduos, em plena atividade reprodutiva, indica boa qualidade ambiental. A presença desses animais nos diz muito sobre a saúde do ecossistema”, afirma Willianilson.
Educação ambiental
O olhar atento que permitiu o registro não foi casual. Desde 2017, Diego Silva (@di_aventuras) desenvolve um trabalho de educação ambiental na zona rural de Antonina.
Ele é um dos fundadores do "Vale do Gigante", iniciativa voltada ao turismo de natureza, e ajudou a implantar o primeiro Centro de Educação Ambiental do município, na comunidade do Rio do Nunes. A região abriga ainda o Cinema Vale do Gigante, espaço que estimula a consciência ambiental por meio de filmes e trilhas na Mata Atlântica.
Para Diego, o flagrante reforça a conexão com a natureza: “A natureza se manifesta o tempo todo, mas nem sempre estamos atentos. Esse momento reforça o sentimento de pertencimento e responsabilidade. Preservar a Mata Atlântica é garantir que esses espetáculos continuem acontecendo”.
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