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Ricco diz não pagar salários por operar 'no vermelho' em meio a crise que atinge passageiros na capital
22/04/2026
(Foto: Reprodução) Com Terminal Urbano vazio, frota de ônibus é totalmente paralisada em Rio Branco
A crise no transporte coletivo de Rio Branco ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (22), quando motoristas paralisaram totalmente a circulação de ônibus na capital cobrando o pagamento de salários e benefícios atrasados.
A suspensão do serviço escancarou um cenário que já vinha se agravando há meses e que, segundo a Empresa Ricco Transportes e Turismo, responsável pela operação emergencial do sistema, envolve prejuízos financeiros e falta de repasses públicos.
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O impacto atinge diretamente os usuários: somente entre os dias 1º e 17 de abril, mais de 490 mil passageiros utilizaram o transporte coletivo na capital. Com a paralisação, o Terminal Urbano amanheceu vazio e muitos usuários precisaram recorrer a alternativas particulares para se deslocar.
Motoristas de ônibus paralisaram totalmente as atividades nesta quarta-feira (22) em Rio Branco
Richard Lauriano/Rede Amazônica Acre
Em documento obtido pelo g1, a Ricco afirma que opera no limite financeiro e atribui a situação a uma combinação de fatores, como a defasagem da tarifa, sem reajuste desde 2022, aumento nos custos operacionais e ausência de repasses integrais por parte da prefeitura, especialmente relacionados a gratuidades e meia-passagem estudantil. (Veja detalhes mais abaixo)
'Raio-X' da empresa
Segundo a empresa, entre os dias 1º e 20 de abril, foram arrecadados cerca de R$ 2,8 milhões, somando receitas de bilhetagem, subsídios e outros repasses. No entanto, as despesas no mesmo período chegaram a R$ 2,9 milhões, gerando um déficit de, aproximadamente, R$ 64 mil.
Os principais custos apontados incluem combustível (R$ 1,15 milhão), peças e manutenção (R$ 481 mil), além de encargos trabalhistas e impostos. Ainda conforme o documento, o saldo negativo teria impedido o pagamento de despesas consideradas essenciais.
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A situação se agrava com valores em aberto que ultrapassam R$ 1,5 milhão, incluindo salários (R$ 574 mil), vale-alimentação (R$ 348 mil), além de rescisões e outros custos operacionais.
O levantamento da empresa mostra que, do total de passageiros transportados neste mês, apenas 53,5% pagam a tarifa integral, estabelecida em R$ 3,50. Outros 23,4% são estudantes com meia-passagem, enquanto 23,1% utilizam o sistema gratuitamente. Na prática, quase metade dos usuários não paga o valor cheio da tarifa.
Motoristas da Ricco paralisam totalmente o transporte coletivo em Rio Branco nesta quarta-feira (22)
Richard Lauriano/Rede Amazônica
A Ricco sustenta que a legislação prevê a compensação desses benefícios pelo poder público. No entanto, a empresa alega que os valores repassados estariam abaixo do necessário para cobrir os custos da operação.
Ainda de acordo com o documento, a prefeitura teria repassado cerca de R$ 1,8 milhão em subsídios no período analisado, quando o valor considerado devido pela empresa seria de R$ 4,4 milhões, com base na chamada tarifa técnica.
A diferença, segundo a Ricco, chega a aproximadamente R$ 1,5 milhão, valor que, conforme a empresa, seria suficiente para quitar salários e fornecedores.
Documento da Ricco alega que fecharam 'no vermelho' em meio a despesas com transporte público em Rio Branco
Reprodução
Atrasos e aumento de custos
A empresa também aponta aumento expressivo nos custos, especialmente com combustível. Segundo a Ricco, o preço do diesel subiu de R$ 5,62 para R$ 7,61 em cerca de um mês, elevando as despesas diárias em cerca de R$ 11 mil.
Além disso, a operadora afirma que há perdas relacionadas à defasagem tarifária, gratuidades sem compensação e diferença não paga nas passagens estudantis.
A crise também envolve divergências contratuais. A empresa relata que, em fevereiro deste ano, comunicou formalmente que não tinha interesse em renovar o contrato emergencial. Dias depois, decidiu manter a operação mesmo após o fim da vigência, mas alega que a prefeitura publicou uma renovação sem a concordância da empresa.
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Desde 2022, o transporte coletivo da capital é mantido por meio de contratos emergenciais sucessivos, após a saída da antiga operadora. Nesse período, o sistema tem enfrentado instabilidades, com redução de linhas e queixas recorrentes de usuários.
A paralisação desta quarta foi organizada pelos próprios motoristas e não pelo sindicato da categoria. Após o movimento, a prefeitura informou que se reuniu com representantes dos trabalhadores e da empresa, e que foi acordado um prazo de 48 horas para buscar soluções que permitam a retomada do serviço.
O prefeito Alysson Bestene (PP) afirmou ainda que a gestão trabalha em medidas para normalizar o transporte e garantir o atendimento à população.
Edital de licitação suspenso
Em meio à crise, o edital da licitação do sistema de transporte público de Rio Branco foi suspenso pela prefeitura após pedido de esclarecimento e impugnação das empresas à Comissão Especial de Licitação (CEL). A medida foi divulgada pela comissão na segunda-feira (20).
O edital que prevê operação por 10 anos e valor estimado em mais de R$ 1 bilhão foi publicado em 12 de março com prazo para apresentação das propostas que se encerraria nesta quarta-feira (22). Segundo a prefeitura, três empresas demostraram interesse na licitação dentro do período.
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A sócia-proprietária da Ricco, Bruna Fernandes Dias, afirmou que a empresa chegou a demonstrar interesse em participar da licitação, mas fez críticas ao modelo proposto.
"Nós tínhamos interesse sim, até porque estamos aqui esse período todo acreditando nessa licitação. Porém, é uma licitação que já nasceu morta, com vários pontos de impugnação. Se não resolver o problema estrutural, não adianta fazer licitação", disse.
Ela também destacou que os valores recebidos atualmente são insuficientes para manter a operação e honrar compromissos com os funcionários.
"Com essa questão do aumento do óleo diesel e com o aumento de peças, insumos, o valor que a gente recebe entre R$ 100 e R$ 130 mil por dia é só para cobrir essas despesas,. Não temos o caixa para poder fazer o pagamento do salário do pessoal", alegou.
Nessa terça (21), o secretário-adjunto de Gestão Administrativa, Erick Silva de Oliveira, explicou em entrevista à Rede Amazônica que a suspensão do edital foi necessária para permitir uma análise mais detalhada dos pedidos de esclarecimento e das impugnações apresentadas por empresas ao processo.
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