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Morador de Campinas perde bolsa em faculdade porque mãe apostava em jogos: 'Perdi sem nunca ter apostado'
07/08/2026
(Foto: Reprodução) Apostas fazem estudantes perder bolsas do Prouni na região de Campinas
O autônomo Eduardo Luvizetto dos Santos, morador de Campinas (SP), perdeu uma bolsa de estudos do ProUni após a faculdade identificar movimentações financeiras da mãe dele em plataformas de apostas. Os valores foram identificados em extratos bancários, período em que foram movimentados R$ 19 mil em bets.
🔎 O Prouni (Programa Universidade para Todos) é um programa do Governo Federal brasileiro criado em 2004. Ele oferece bolsas de estudo integrais (100%) e parciais (50%), conforme a renda familiar, em faculdades particulares para cursos de graduação. O processo seletivo usa as notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Eduardo tentava ingressar no curso de psicologia da Universidade Paulista (Unip) e precisou entregar os extratos bancários da mãe por conta da comprovação da renda familiar.
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Eduardo perdeu bolsa de estudo por conta de movimentações da conta da mãe em bets
Reprodução/EPTV
O dinheiro que entra e sai de plataformas de apostas tem sido contabilizado pelas universidades como renda familiar, o que acaba fazendo com que a renda familiar ultrapasse o limite exigido pelo programa federal.
"Eles colocaram isso daqui, o que entrou, como renda. Só que é nítido que são entradas de plataformas de jogos. Ou seja, não é o dinheiro que veio de investimento, de salário", disse Eduardo.
"Eu acabei perdendo sem nunca ter tido acesso a uma plataforma de jogos. Eu acabei perdendo sem entrar numa plataforma de jogos", lamentou.
Em nota, a Unip informou que os critérios do ProUni determinam que sejam computados rendimentos de qualquer natureza do grupo familiar, mas reconheceu que o indeferimento tem impacto real na vida do estudante — leia a manifestação completa abaixo.
Já o Ministério da Educação disse que a conferência documental e a análise dos critérios de renda são de responsabilidade exclusiva da instituição de ensino superior escolhida pelo aluno. Também afirmou que é de inteira responsabilidade do candidato informar os dados corretamente para que reflitam a realidade financeira de sua família.
Impactos na família
Eduardo perdeu bolsa de estudo em psicologia por conta de apostas da mãe
Reprodução/EPTV
A auxiliar administrativa Letícia Cristina da Silva também teve a renovação da bolsa de estudos rejeitada pela PUC-Campinas por conta do vício nas apostas. "Como se aquela renda dos jogos que entravam no extrato bancário dela auxiliasse na renda da família, o que é o contrário", comentou.
Por conta da situação, Letícia precisou mudar de faculdade e uma irmã não poderá tentar, de imediato, a bolsa do ProUni. A relação familiar está abalada.
"Os jogos de aposta atrapalharam muito várias famílias brasileiras, inclusive a minha. Acredito que deveria, sim, ter políticas públicas, leis, que controlem esse tipo de situação e deem suporte para as pessoas que passam por isso", ponderou.
Em nota, a PUC informou que segue obrigatoriamente as regras do Ministério da Educação e que o perfil econômico da família de Letícia se mostrou incompatível com as exigências.
A psiquiatra Renata Azevedo, do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, acrescenta que o vício afeta todos ao redor. A médica coordena um ambulatório do HC que acolhe e cuida de pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas eletrônicas.
"A gente tem visto que impacta muito nas famílias, tanto do ponto de vista econômico, que às vezes demora a perceber que um dinheiro está sendo desviado para isso, e também do ponto de vista de sofrimento", destacou a médica.
Exagero
Ludopatia: entenda o que é a doença de pessoas viciadas em jogos de azar
Especialistas em direito digital avaliam que as universidades estão tendo um excesso de cautela. O advogado Carlos Alberto Campos explica que o dinheiro depositado pelas casas de apostas não deveria ser considerado como sustento.
"Essas entradas de aplicativos, de receitas através de aplicativos de bet, não compõem uma renda familiar. Mesmo porque o que a gente tem observado é um aumento crescente, exponencial das famílias endividadas por conta de apostas em plataformas de bets", ponderou.
O que diz a Unip
A Unip informa, inicialmente, que não comenta casos individuais de estudantes ou candidatos, nem divulga informações sobre processos individuais de concessão de bolsas. A restrição decorre de dever legal de proteção de dados pessoais (Lei nº 13.709/2018) e se aplica com ainda mais rigor quando envolve dados de saúde e informações de familiares de alunos ou ex-alunos da instituição. Sem prejuízo da observação anterior, prestamos, a seguir, os esclarecimentos possíveis sobre as regras do Programa.
O ProUni é um programa federal e seus requisitos de participação, inclusive os limites de renda, são fixados pela Lei nº 11.096/2005 e pelas Portarias Normativas MEC nº 19/2008 e 1/2015 (conforme alteradas ulteriormente). As universidades participantes devem, a todo tempo, cumprir tais regras legais e regulamentares, incluindo, não somente, mas também, aquelas que estabelecem que a bolsa de estudos deve ser encerrada pelo coordenador ou representante do ProUni quando houver “substancial mudança de condição socioeconômica do bolsista”, entre outras hipóteses.
Um dos critérios que deve ser examinado para a concessão e manutenção da bolsa de estudos é a renda familiar bruta mensal por pessoa, apurada com base nos meses anteriores. A disciplina jurídica vigente determina que sejam computados os rendimentos de qualquer natureza recebidos pelos integrantes do grupo familiar, de forma regular ou eventual. Em 2026, com o salário-mínimo de R$ 1.621,00, os limites de renda familiar são de R$ 2.431,50 por pessoa para a bolsa integral e de R$ 4.863,00 para a bolsa parcial. Os ganhos excluídos do conceito de rendimento familiar, para fins de concessão de bolsa, estão taxativamente enumerados no §3º do art. 11 da Portaria Normativa MEC nº 1/2015, e os ganhos provenientes de apostas não estão contemplados em tal rol.
As análises conduzidas pela coordenação do ProUni na instituição são registradas no sistema do Ministério da Educação dentro dos prazos do edital e formalizadas em documento entregue ao estudante, com indicação dos motivos. O estudante que discordar do resultado pode recorrer ao Ministério da Educação.
A Universidade reconhece que um indeferimento tem impacto real sobre a vida do estudante e de sua família, e é assim que trata cada análise. A instituição mantém programas próprios de bolsas e descontos, participa do Fundo de Financiamento Estudantil – FIES e oferece canais de apoio ao aluno, alternativas que segue colocando à disposição de quem não se enquadra nos critérios do ProUni.
Sobre o tema mais amplo suscitado pela reportagem, a Universidade reconhece o transtorno do jogo como questão de saúde pública de gravidade crescente, com efeitos severos sobre as famílias brasileiras. A legislação do ProUni, contudo, não exclui os ganhos de apostas, mesmo que auferidos com pessoa com afetada por ludopatia, do conceito de renda familiar para fins de concessão de bolsa de estudos.
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