Mega Fm Ata (Araçatuba-Sp) Whatsaap: 18 98119-2663
Hantavírus, COVID, norovírus… Por que os navios de cruzeiro são tão suscetíveis a surtos de doenças?
08/05/2026
(Foto: Reprodução) 'Não posso permitir a entrada': o futuro incerto do navio com surto de hantavírus
Reuters
O surto de hantavírus que no começo deste mês de maio de 2026 matou três passageiros que estiveram a bordo do transatlântico holandês MV Hondius e obrigou a embarcação a paralisar sua viagem da Europa para as Ilhas Canárias reacendeu as preocupações sobre as condições sanitárias a bordo de grandes navios.
Os cruzeiros são vendidos como férias flutuantes, mas também são úteis para compreender a saúde pública. Os navios de cruzeiro são locais cuidadosamente projetados onde muitas pessoas vivem, comem, relaxam e circulam pelos mesmos espaços compartilhados durante vários dias seguidos. Eles mostram com que facilidade as doenças podem se espalhar quando as pessoas estão amontoadas em um único ambiente interconectado.
Pense em um navio de cruzeiro como uma cidade temporária no mar. Ele tem restaurantes, teatros, elevadores, cabines, cozinhas, sistemas de água e espaços de convivência internos. Isso é ótimo em termos de conveniência, mas também significa que, uma vez que uma infecção entre a bordo, ela pode se espalhar pelo navio de maneiras difíceis de conter.
VEJA TAMBÉM:
OMS não espera grande epidemia de Hantavírus
O surto no Diamond Princess é talvez o exemplo mais conhecido. Durante o surto de COVID-19 em 2020, 619 passageiros e tripulantes testaram positivo para a doença. Pesquisadores descobriram que as condições do navio facilitaram a propagação do novo coronavírus. Sua modelagem sugeriu que medidas de saúde pública, como isolamento e quarentena, evitaram muitos outros casos, mas também mostrou que uma resposta mais precoce teria limitado ainda mais o surto.
O norovírus (o chamado “vírus do vômito”) é a infecção mais intimamente ligada aos navios de cruzeiro. Em uma revisão de estudos publicados anteriormente, os pesquisadores encontraram 127 relatos de surtos de norovírus em navios de cruzeiro, muitos deles ligados a alimentos contaminados, superfícies contaminadas e transmissão de pessoa para pessoa. Um relatório mais recente dos EUA também mostrou que o norovírus pode se espalhar muito rapidamente de pessoa para pessoa em um navio de cruzeiro.
Isso ajuda a explicar por que navios como o Celebrity Mercury, o Explorer of the Seas e Carnival Triumph se tornaram nomes familiares nos relatórios de surtos. Esses casos não eram incomuns de alguma forma especial; eram simplesmente ambientes onde refeições compartilhadas, contato próximo e movimentação frequente pelas áreas comuns permitiram que a infecção se espalhasse rapidamente.
O serviço de alimentação desempenha um papel importante nesse risco. Refeições em estilo buffet, utensílios compartilhados e muitas pessoas tocando nas mesmas superfícies podem facilitar a propagação de vírus estomacais. Se alguém estiver infectado, mas ainda não se sentir doente, pode contaminar alimentos ou superfícies antes de perceber que está mal.
O projeto do navio agrava o problema. As pessoas passam tempo juntas em refeitórios, bares, elevadores, corredores, teatros e áreas de spa. Os tripulantes também vivem e trabalham no mesmo ambiente, muitas vezes em acomodações compartilhadas, de modo que a doença pode se espalhar pelo navio de passageiro para passageiro ou entre passageiros e tripulantes.
A ventilação também desempenha um papel crucial. Os navios de cruzeiro não são caixas fechadas, mas dependem fortemente de espaços internos onde as pessoas passam longos períodos juntas. Estudos sobre a qualidade do ar em navios de cruzeiro demonstraram que as doenças podem se espalhar mais facilmente em espaços fechados e lotados, como cabines, restaurantes e locais de entretenimento, se o sistema de ventilação não estiver à altura. Fatores como circulação adequada de ar fresco, filtros especializados e tecnologia de purificação do ar desempenham um papel importante na segurança dos passageiros.
A doença do legionário (uma doença pulmonar grave causada por bactérias) apresenta um tipo diferente de risco. Ela geralmente não se transmite diretamente de uma pessoa para outra. Em vez disso, as pessoas podem ser infectadas ao inalar minúsculas gotículas provenientes de sistemas de água contaminados, banheiras de hidromassagem ou chuveiros.
Um surto bem conhecido entre passageiros de cruzeiros foi associado a uma banheira de hidromassagem, e relatórios recentes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA descreveram outros surtos de doença do legionário associados a cruzeiros e ligados aos sistemas de água dos navios.
LEIA TAMBÉM:
Pacientes que não estavam em cruzeiro têm suspeita de hantavírus
Hantavírus em alta na Argentina pode indicar origem do surto em navio; entenda
A idade também é importante. As férias em cruzeiros são especialmente populares entre idosos, e muitos passageiros têm condições de saúde crônicas que tornam as infecções mais graves. Uma infecção intestinal em um cruzeiro pode levar à desidratação, e uma infecção respiratória pode resultar em pneumonia ou necessidade de tratamento hospitalar.
Os navios de cruzeiro possuem instalações médicas, mas elas são limitadas em comparação com hospitais em terra. Elas são projetadas para prestar primeiros socorros, tratamento básico e cuidados de curto prazo, não para gerenciar um surto de rápida propagação em grande escala. É por isso que a saúde em cruzeiros depende tanto da notificação precoce, do isolamento rápido e de práticas rigorosas de limpeza.
Outras infecções, como vírus respiratórios, incluindo a gripe, podem se espalhar nos mesmos ambientes fechados e lotados, e vírus estomacais podem se espalhar através de alimentos, mãos e superfícies compartilhadas. A COVID e a gripe se aproveitam do ar confinado e das multidões. O norovírus adora buffets e superfícies.
A legionelose ataca sistemas de água, que os navios não conseguem esterilizar facilmente. Surtos de hantavírus (uma doença respiratória grave transmitida por roedores) em navios são raros. No entanto, como atestam as notícias recentes sobre as mortes no MV Hondius, os germes em ambientes confinados se espalham com muito mais facilidade.
Como limitar o risco
Como epidemiologista, já presenciei muitos surtos em hospitais, escolas e até mesmo em voos. Para os viajantes, a melhor proteção começa antes do embarque. É sensato verificar se a empresa de cruzeiros possui políticas claras de notificação de doenças, limpeza e isolamento. Certifique-se de que suas vacinas de rotina estejam em dia. E para idosos, mulheres grávidas e qualquer pessoa com problemas de saúde, consulte seu médico antes de viajar. Além disso, certifique-se de que seu seguro de viagem cubra interrupções relacionadas a doenças.
Uma vez a bordo, lavar as mãos com água e sabão é a medida mais eficaz para prevenir infecções estomacais como o norovírus. O álcool em gel pode ajudar, mas não substitui a água e o sabão. Se você começar a se sentir mal, o mais seguro é evitar buffets e espaços comuns lotados e comunicar os sintomas logo no início, em vez de tentar continuar como se nada tivesse acontecido.
As empresas de cruzeiros aprimoraram seus sistemas de higiene e resposta a surtos ao longo do tempo, e muitas viagens transcorreram sem incidentes. Mas a estrutura básica das viagens de cruzeiro ainda apresenta o mesmo desafio: muitas pessoas compartilhando as mesmas refeições, o mesmo ar, os mesmos sistemas de água e os mesmos espaços comuns. É por isso que os surtos continuam ocorrendo e que os navios de cruzeiro permanecem como um lembrete útil de que a saúde pública é moldada tanto pelo design quanto pelos germes.
*Vikram Niranjan é professor assistente de Saúde Pública, Faculdade de Medicina, Instituto de Pesquisa em Saúde na Universidade de Limerick.
**Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.