Mega Fm Ata (Araçatuba-Sp) Whatsaap: 18 98119-2663
Como a morte de diretor de empresa de ônibus levou à investigação que colocou vereador de SP no centro de suposto esquema do PCC
25/06/2026
(Foto: Reprodução) Ponto de partida de investigação foi assassinato do ex-diretor da Transunião, Adauto Soares Jorge
Arquivo pessoal
A investigação que levou a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) a apontar o vereador paulistano Senival Pereira de Moura (PT) como uma das figuras centrais de um suposto esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) começou com um homicídio ocorrido há mais de seis anos.
Em 4 de março de 2020, o então diretor-presidente da empresa de ônibus Transunião Transportes S.A., Adauto Soares Jorge, foi morto a tiros no estacionamento de uma padaria no bairro do Lajeado, na Zona Leste da capital (leia mais abaixo).
O crime, inicialmente tratado como uma execução, acabou abrindo caminho para uma investigação que revelaria, segundo as autoridades, uma estrutura paralela de controle e movimentação financeira dentro da empresa de transporte.
Segundo a investigação, o avanço das diligências após a morte de Adauto permitiu a apreensão de seu aparelho celular e de diversos pen drives que estavam com ele no momento do assassinato.
Operação do Deic e Gaeco mira empresa de ônibus e vereador de SP
A análise do material revelou documentos e dados que, de acordo com a Polícia Civil e o MP-SP, extrapolavam as circunstâncias do homicídio e apontavam para uma hipótese criminal mais ampla, relacionada à gestão operacional e financeira da Transunião.
Entre os arquivos encontrados estavam planilhas intituladas "Contato" e "Contato 3", que relacionavam ônibus da frota a duas categorias distintas: "cooperado" e "cooperado oficial".
Para os investigadores, as planilhas mostram que parte da frota estava registrada em nome de terceiros, enquanto os rendimentos eram destinados aos reais controladores dos ônibus, sugerindo a existência de um mecanismo informal de gestão patrimonial e redistribuição de receitas.
Mensagens e movimentações
O líder do PT na Câmara Municipal de São Paulo, vereador Senival Moura.
Afonso Braga/CMSP
A investigação também identificou mensagens trocadas por Adauto que, segundo os investigadores, revelavam a existência de uma instância decisória paralela na empresa.
As conversas mencionavam depósitos bancários, cobranças, repasses financeiros e pagamentos a pessoas sem vínculo societário aparente com a Transunião. Para a Polícia Civil e o Ministério Público, as mensagens apontam que parcela significativa dos recursos gerados pela empresa era direcionada a pessoas que, embora não integrassem formalmente a companhia, exerciam influência sobre sua administração.
Foi a partir do cruzamento dessas mensagens, desses documentos e desses registros financeiros que os investigadores passaram a sustentar a hipótese de que a Transunião era utilizada como instrumento de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial em benefício de integrantes do PCC.
Segundo o MP-SP, a investigação iniciada a partir da morte de Adauto acabou colocando novamente no centro das apurações o vereador Senival Moura, que já havia sido citado em diligências anteriores relacionadas à Transunião.
Os investigadores sustentam que o parlamentar exercia o controle de fato da empresa, apesar de não aparecer formalmente em seu quadro societário, e que a companhia era utilizada para movimentar recursos e ocultar patrimônio.
Figura central
O vereador de São Paulo Senival Pereira de Moura (PT), preso na operação deflagrada pela Polícia Civil e pelo MP-SP nesta quinta-feira (24), é apontado como uma das figuras centrais de um suposto esquema de lavagem de dinheiro do PCC.
Segundo as investigações, a empresa de ônibus Transunião Transportes S.A. teria sido usada para ocultar patrimônio e movimentar recursos da facção criminosa.
Em seu sexto mandato na Câmara Municipal, Senival ocupa atualmente os cargos de primeiro-secretário da Mesa Diretora e de presidente da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica, colegiado responsável por discutir e fiscalizar políticas relacionadas ao setor de transportes na capital paulista.
Segundo a investigação, o vereador construiu sua trajetória política na Zona Leste após atuar com antigos operadores de transporte alternativo, conhecidos como "perueiros", durante o processo de regularização do setor no início dos anos 2000.
Os investigadores afirmam que sua relação com o transporte de passageiros é ainda mais antiga e remonta à década de 1970, quando ele explorava linhas clandestinas que ligavam os bairros de Guaianases ao Itaim Paulista, também na Zona Leste da capital, a partir de veículos Kombi.
O nome do parlamentar, porém, não aparece pela primeira vez nas investigações envolvendo a Transunião.
Em 2022, o g1 revelou que Senival já era investigado por suspeita de envolvimento na morte de Adauto Soares Jorge, ex-diretor financeiro da empresa de ônibus. Na ocasião, a Polícia Civil prendeu dois suspeitos e apreendeu 13 ônibus da companhia. O vereador negou as acusações e afirmou estar à disposição da Justiça (leia mais abaixo).
Investigação
O ponto de partida das investigações foi o assassinato de Adauto, morto a tiros no estacionamento de uma padaria no bairro do Lajeado, na Zona Leste, em março de 2020.
Em 2022, os investigadores já apontavam que Adauto atuava como um dos "laranjas", sendo um "testa de ferro", ou seja, um dos representantes de Senival Moura na direção da empresa Transunião, que seria utilizada para a lavagem de dinheiro de integrantes do PCC
Na ocasião, a polícia apontou Jair Ramos de Freitas, conhecido como "Cachorrão", como o autor dos disparos que mataram o ex-diretor. No dia do crime, Adauto foi levado até a padaria por Devanil Souza Nascimento, o "Sapo", apontado como motorista de confiança de Senival e também preso na operação de 2022.
O Ministério Público sustenta que o crime foi motivado por uma "quebra de confiança" financeira. Integrantes da facção teriam descoberto que Adauto estaria desviando valores da Transunião para subsidiar um "caixa dois" para a campanha de reeleição de Senival Moura em 2020, em detrimento dos repasses que deveriam ser feitos ao PCC.
Diante disso, o operador Leonel Martins ("Cabeça Branca") teria sido escalado para resolver a questão por meio de um "debate" (tribunal do crime), que resultou na ordem de execução (leia mais abaixo).
Quatro anos depois, a nova operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) sustenta que reuniu elementos em celulares apreendidos que colocam novamente Senival no centro do caso.
Embora não apareça no contrato social, mensagens analisadas mostram que movimentações financeiras informais e repasses de grandes quantias em dinheiro — como pagamentos semanais de R$ 70 mil para "acertar os cara" — dependiam de sua anuência ou intervenção prévia.
Segundo os investigadores, mensagens analisadas durante a investigação indicam que movimentações financeiras informais e repasses de recursos dependiam de sua autorização prévia.
Nas comunicações entre os operadores do esquema, de acordo com os autos, Senival era frequentemente identificado pelos apelidos de "presidente", "véio", "velhinho" ou simplesmente "vereador".
Patrimônio milionário
Planilhas internas apreendidas pela investigação também apontam que o parlamentar aparecia como "cooperado oficial" de pelo menos 13 ônibus da frota. Segundo os investigadores, a expressão era utilizada para identificar o verdadeiro beneficiário econômico dos veículos, embora eles estivessem registrados em nome de terceiros ou da própria empresa.
Apesar disso, os rendimentos eram sistematicamente desviados para o vereador, segundo a investigação.
As apurações da operação deflagrada nesta quinta indicam que o esquema utilizava familiares e pessoas de confiança para ocultar patrimônio e interesses econômicos ligados ao vereador. Os autos citam a participação da esposa de Senival, Maria de Lourdes Andrade de Moura, de seus filhos Ítalo e Vitor Andrade de Moura, e de seu irmão, Rubens Pereira de Moura, em movimentações e registros societários suspeitos.
Além do núcleo familiar, o assessor parlamentar Adão Lino dos Santos e o motorista Devanil Sousa Nascimento, o "Sapo", são apontados como peças operacionais que asseguravam o controle fático do vereador sobre a empresa e suas subsidiárias.
Relatórios de inteligência financeira mencionados na investigação apontam que Senival movimentou cerca de R$ 4,39 milhões entre 2019 e 2022. Segundo os investigadores, haveria uma diferença superior a R$ 2,4 milhões entre os valores movimentados e os rendimentos oficialmente declarados pelo vereador.
Os autos também mencionam a posse de imóveis de alto padrão, entre eles um apartamento na Vila Madalena, na Zona Oeste da capital, e uma propriedade rural em Extrema, no sul de Minas Gerais.
Condenados à morte
Os documentos do Ministério Público afirmam que, após a descoberta dos supostos desvios, tanto Adauto quanto Senival teriam sido "condenados à morte" pelo PCC pelo tribunal do crime da facção. Segundo os investigadores, porém, o vereador teria sido perdoado em razão de sua influência política e capacidade financeira de ressarcir parte do prejuízo apontado pela facção.
Como contrapartida ao "perdão", Senival teria sido compelido a concordar com a morte de Adauto, seu próprio representante. Adauto Soares Jorge acabou assassinado a tiros em março de 2020, em uma emboscada na Zona Leste
A defesa de Senival Moura não havia se manifestado sobre a nova operação até a última atualização desta reportagem. Em 2022, o vereador afirmou que era inocente, que foi surpreendido pela ação policial e que estava à disposição da Justiça.